Uma ode e um ensaio: Gonçalves de Magalhães e o patriotismo romântico nos primeiros anos da independência

Autores

Palavras-chave:

Gonçalves de Magalhães, Literatura romântica, Romantismo nacionalista

Resumo

Ode pindarica ao amor da patria, poema de um jovem Domingos José Gonçalves de Magalhães, é uma exaltação ao Brasil, uma apologia a um nascente Estado independente, uma declaração de lugar e centralidade. Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil é um manifesto e uma chamada aos intelectuais “patriotas”. Gonçalves de Magalhães, nesses anos 1830, expressa um, podemos dizer, romantismo emergente em sua visão de mundo, um ímpeto patriótico que, nestes dois escrito de estilos diferentes, deixa escapar as primeiras linhas escriturárias de um projeto de busca pela completude, um preenchimento daquilo que Jacques Derrida chamou de lógica da suplementariedade, um nexo de busca por um a priori que se imagina ser, por um jogo paradoxal de teleologia retroativa, substrato ontológico e natural de um princípio identitário. O princípio nacionalista, especialmente na primeira metade do século XIX no Brasil, delineia uma busca pela constituição de uma cultura distinta, marcadamente uma “alta” cultura distinta, se o Estado agora era governado pelos “seus”, caberia aos intelectuais desenhar as fronteiras deste “nós”, a literatura e as artes em geral sendo a plataforma que serviria a tal propósito. E, Magalhães com seu poema e ensaio compõem uma evidência destes primeiros passos de uma tarefa, evidentemente disseminada, compartilhada e complexa, da ativa constituição de um Brasil e de brasileiros pela letra escrita.

Biografia do Autor

Felipe Augusto Tkac, Universidade Federal do Paraná - Programa de Pós-Graduação em História

Doutorando no Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal do Paraná, Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (2020) e Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2017). O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES).

Referências

ALENCASTRO, Luis Felipe de. Memórias da Balaiada: introdução ao relato de Gonçalves de Magalhães. Novos Estudos CEBRAP, nº 23, p. 07-13, março de 1989.

AMORA, Antônio Soares. O romantismo (1833-1838/1878-1881). São Paulo: Cultrix, 1967.

ANDRADE, Débora El-Jaick. Semeando os alicerces da nação: História, nacionalidade e cultura nas páginas da revista Niterói. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 29, nº 58, p. 417-442, 2009.

DELEUZE, Gilles. Platão e o simulacro. In.: ______. Lógica do sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 269-270.

DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. Tradução de Rogério Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005.

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Tradução de Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2017.

FRANCHETTI, Paulo. Gonçalves de Magalhães e o romantismo no Brasil. Revista de Letras, São Paulo, v. 46 n. 2, p. 89-103, jul./dez. 2006.

JANCSÓ, István. Brasil e brasileiros – Notas sobre modelagem de significados políticos na crise do Antigo Regime português na América. Estudos Avançados, São Paulo, v. 22, n. 62, p. 257-274, Apr. 2008.

JESI, Furio. A festa e máquina mitológica. Boletim de pesquisa Nelic, Florianópolis, v. 14, n. 22, p. 26-58, 2014. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko.

JESI, Furio. O mito. Lisboa: Editorial Presença, 1973, p. 153.

LESSA, Carlos. Nação e nacionalismo a partir da experiência brasileira. Estudos Avançados, São Paulo, v.22, n.62, p. 237-256, Apr. 2008.

MAGALHÃES, D. J. G. de. Carta ao meu amigo Dr. Candido Borges Monteiro. In.: ______. Poesias Avulsas. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1864a, p. 331-364.

MAGALHÃES, D. J. G. de. Ode pindárica ao amor da patria. In.: ______. Poesias avulsas. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1864b, p. 13-17.

MAGALHÃES, D. J. G. de. Suspiros Poéticos e Saudades. Rio de Janeiro: Em casa do Senhor João Pedro da Veiga. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836a.

MAGALHÃES, D. J. G. Ensaio sobre a História da Litteratura do Brasil. In.: Nitheroy, Revista Brasiliense. Sciencias, Lettras e Artes. Tomo Primeiro, nº. 1. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836b, p. 132-159.

MOREIRA, Eunice Moreira. História da literatura e identidade nacional brasileira. Revista de Letras, São Paulo, 43(2), p. 59-73, 2003.

NITHEROY, Revista Brasiliense. Sciencias, Lettras e Artes. Tomo Primeiro, nº. 1. Paris: Dauvin et Fontaine, 1836c.

RAMOS, Francisco R. L. Passado sedutor: a história do Ceará entre o fato e a fábula. In.: RIOS, Kênia Sousa; FURTADO FILHO, João Ernani (orgs.). Em Tempo: História, Memória, Educação. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2008, p. 279-298.

SANTIAGO, Silviano (et. al). Glossário de Derrida. Trabalho realizado pelo Departamento de Letras da PUC/RJ, supervisão geral de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976.

SMITH, Anthony D. Culture, Community and Territory: The Politics of Ethnicity and Nationalism. Ethnicity and International Relations, vol. 72, no. 3, p. 445-458, Jul., 1996.

SOUZA, Roberto Acízelo de. Gonçalves de Magalhães: cadeira 9, patrono. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012, p. 09.

Downloads

Publicado

11.04.2022

Como Citar

Tkac, F. A. (2022). Uma ode e um ensaio: Gonçalves de Magalhães e o patriotismo romântico nos primeiros anos da independência. Escrita Da História, 1(15), 170–193. Recuperado de https://escritadahistoria.com/index.php/reh/article/view/250