Chamada para dossiê - Negacionismos, anti-intelectualismos e fake news: a aporia da história na era da pós-verdade

01.07.2022
  • negacionismo científico e negacionismo histórico em diferentes contextos;
  • movimentos anti-intelectuais: perseguição de formas diversas de saber, arte e cultura;
  • propaganda política, disseminação de informações falsas, desqualificação de opositores públicos e construção de inimigos imaginários;
  • “pós-verdade”, algoritmo, redes sociais e cultura de compartilhamento;
  • polarização política, teorias conspiratórias e novas formas de construção de consensos;
  • pandemia da covid-19: a querela entre ciência e opinião nas políticas públicas de saúde;
  • o lugar da escrita da história frente às novas formas narrativas e de construção de sentidos na era digital.

Encher “as pessoas com ‘fatos’ até que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente ‘brilhantes’ quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar”. Em Fahrenheit 451 (1953) Ray Bradbury já percebia que existiam formas mais eficientes que a censura no silenciamento e marginalização do trabalho intelectual, do saber construído de maneira pública e publicamente verificado.

Da indústria cultural e difusão de narrativas nas múltiplas telas que pouco a pouco dominaram a paisagem dos centros urbanos ao longo do século XX,  à propagação vociferante de “fatos alternativos” – como a eles se referiu Donald Trump em seu mandato presidencial – por meio de plataformas de compartilhamento conectadas em rede. Uns responsáveis por uma poderosa sutura entre informação, propaganda e entretenimento, outros por torná-los indistinguíveis, um sem número de discursos disputam com o trabalho de especialistas. Historiadores, eruditos, jornalistas e cientistas sociais são alguns dos atores desse agonístico terreno da construção da memória coletiva, das representações  sociais e, portanto, da produção de uma base mínima de fatos compartilhados sobre a qual seja possível construir o debate público. Por vezes tomados como peritos qualificados que inspiraram lutas sociais e legitimaram políticas públicas, como formadores de cidadãos e produtores de um estoque de conhecimentos válidos, em outras como inimigos internos e agentes da destruição dos valores tradicionais. 

A recente emergência de movimentos de ultra direita, de mãos dadas com outsiders políticos de perfil autocrata, vem ameaçando as corroídas fundações da democracia burguesa e revivendo, em forma e sentido, alguns dos fantasmas do centênio passado, das experiências limite que ainda nos assombram. Foram impulsionados em um novo paradigma comunicacional que multiplicou os produtores de conteúdo – antes receptores de um sistema centralizado de informação e agora interagentes em redes descentralizadas de compartilhamento – e alavancados pela manipulação dos algoritmos sociais, pela ação de trolls e robôs.

Para explorar esse cenário, convidamos pesquisadores de diferentes tradições disciplinares e perfis formativos a enviar trabalhos para composição deste dossiê até 28/9/2022, por meio do site www.escritadahistoria.com. Temas como negacionismo, movimentos anti-intelectuais e a propagação massiva de informações imprecisas, em várias temporalidades e sobre diferentes olhares, assim como para a reflexão sobre o papel da história e das humanidades diante destes cenários, ou sobre as possibilidades de análise dessas narrativas e discursos e a sua utilização para a escrita da história.